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A grama do vizinho é mais verde - reflexões sobre a inveja




Por Teresa Cristina Ribeiro Kfouri

Membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP

Membro do Gep Rio Preto e Região


“Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de

incerto jeito, pode já estar sendo o querendo mal, por principiar.”

(Rosa, 2006, p. 16)


Pouco antes de sua morte em 1961, Melanie Klein surpreende, mais uma vez, com sua criatividade, a comunidade psicanalítica, discorrendo sobre a inveja primária e seus desdobramentos na personalidade. Diz ela: “Meu trabalho ensinou-me que o primeiro objeto a ser invejado é o seio nutridor, pois o bebê sente que o seio possui tudo que ele deseja e que tem o fluxo ilimitado de leite e de amor que guarda para sua própria gratificação.” (Klein, 1991a, p. 214).

Ela diferencia a inveja do ciúme e da voracidade dizendo que o ciúme é baseado no amor e visa à posse do objeto amado e a tentativa de eliminar o rival. No caso da inveja, a relação é dual, em que a pessoa inveja o objeto por alguma posse ou qualidade, não havendo necessidade de outro objeto vivo na relação.

Nos desenvolvimentos patológicos do Édipo, a inveja do relacionamento dos pais desempenham papel importante, mais do que os sentimentos de ciúme. Fortes sentimentos de inveja conduzem ao desespero. Não sendo encontrado o bom objeto, não há esperança de amor e até mesmo de qualquer possibilidade de ajuda. Os objetos são destruídos e tornam-se fonte de perseguição e de culpa. Ataques invejosos aos bons objetos - pai, casal, mãe que alimenta - interferem nos processos introjetivos e o resultado é um sofrimento para aprender, pensar e amar.

Klein, no início do texto Inveja e Gratidão, um dos mais significativos e o último de seus trabalhos teóricos de maior importância, diz : “Há muitos anos venho me interessando pelas fontes de duas atitudes que sempre foram familiares: a inveja e a gratidão. Cheguei a conclusão de que a inveja é um fator muito poderoso de solapamento das raízes dos sentimentos de amor e gratidão, pois ela afeta a relação mais antiga de todas, a relação com a mãe”. (Klein, 1991a, p 207)

A inveja é a mais radical das manifestações dos impulsos destrutivos, pois leva ao ataque e à destruição dos bons objetos, cuja introjeção é a base para uma vida psíquica saudável. Klein descreve a inveja como manifestação de impulsos destrutivos de raízes profundas. Associada à voracidade sempre insaciável, a inveja consiste em uma ânsia pelo bom do outro, entrelaçado com forte desejo de destruir, devido à falta de um sentimento básico de satisfação íntima, fruto de frustrações iniciais que desencadeiam ódio e ressentimento contra tudo que é bom - no dito de nossas avós “o saco sem fundo”.

Ao descrever a dinâmica da inveja primária, Klein introduz a capacidade de experimentar gratidão como uma espécie de antídoto. É pela gratidão para com a bondade do objeto e pela capacidade de usufruto dos benefícios que dele se infere, que a inveja fica amenizada e, às vezes, até neutralizada - desenvolvimento e crescimento mental são evidências dos efeitos da capacidade de ser grato. A inveja é um destruidor do bem-estar do próprio invejoso, a auto-inveja que ataca o que tem de bom e esvazia o sujeito, quando associada à avidez e à voracidade, quero tudo e muito, a experiência é a de “quem tudo quer e nada tem”.

Diz a sabedoria popular, como expressão da inveja, que a grama do vizinho é mais verde. Nesse sentido, a inveja é também um sentimento doloroso - o que eu tenho não serve e não presta e o bom esta lá fora com o outro. No caso de a cisão ser profunda, tudo se volta contra o outro, mas não se trata de que o ódio não deixe de corroer o íntimo de quem ataca. É como no caso do homem bomba que destrói seu entorno, mas antes de tudo é o primeiro a ser destruído. O alvo principal da inveja é a bondade que engloba as boas qualidades, a capacidade criativa e a generosidade do bom objeto.

Inveja e gratidão foi um texto causador de muita polêmica no meio psicanalítico. Winnnicott foi um dos que tomou posição sobre o tema da inveja para uma discordância profunda e explícita. Esse trabalho reafirma a importância da necessidade de análise longa e duradoura como possibilidade de permitir ao paciente ter acesso a seus sentimentos de inveja obscuros desde a vivência materna primária e que insistem em ser "esquecidos”, penso que com a colaboração dos fatores de religiosidade e puritanismo que a inveja atinge. É necessário, a despeito da dificílima tarefa de elaboração, que na relação analítica possa se repetir a relação com o objeto primário e admitir a inveja da vitalidade, da capacidade de luta e criatividade, da fecundidade e generosidade da fonte de vida de que precisamos e somos dependentes.

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