ACOLHIMENTO E ABANDONO


As ligações afetivas podem ser determinantes no desenvolvimento do ser humano. O afeto amoroso traz sempre um sentido positivo na vida dos indivíduos. Nossa característica principal, como pessoas, é colocar significados em nossos sentimentos, nos fatos, pessoas, coisas e nas relações entre eles. Esta possibilidade nos individualiza e humaniza.


Interagindo no mundo, ou entre si, os indivíduos podem apresentar os mais diversos tipos de comportamentos: tanto construtivos, em favor da preservação, manutenção e crescimento da vida, quanto destrutivos, tendendo à morte ou à desintegração física e ou psíquica. Nisto se incluem desejos, fantasias, atitudes e ações concretas que ameaçam ou terminam com a própria vida.


Em nossa profissão, percebemos o aumento da demanda de pessoas que precisam de ajuda para compreender e controlar as atitudes destrutivas, tais como automutilações e tentativas de suicídio, às vezes, fatais.


Segundo Freud, somos movidos por forças que desconhecemos e nem sempre governamos. Forças que são inconscientes, às quais deu o nome de pulsão de vida e pulsão de morte.

A dinâmica tensa e intensa na interação entre as pulsões, a prevalência de uma sobre a outra, alternando ou fusionando-se no aparelho psíquico, permeia a história dos indivíduos e dos grupos. História essa que é escrita com a ambivalência com a qual caminha a humanidade.


Os aspectos contraditórios da natureza humana levam a atitudes que resultam em crescimento, desenvolvimento ou desintegração chegando à extinção da vida.


Quando os impulsos gerados pela pulsão de vida (libido) se ligam aos objetos externos há uma troca energética, cuja qualidade é marcada pela presença do amor que permite administrar esse jogo de forças intra e extra psíquicas. Porém, os impulsos de ódio por intolerância às frustrações podem prevalecer e, em alguns momentos, a destrutividade se faz presente.

A matriz desse modelo de ligação é moldada pelas primeiras experiências de contato com um outro ser humano, no caso, a mãe, ou alguém que desempenhe o papel de cuidar do bebê, que, diferente das outras espécies, nasce totalmente desamparado, sem condições de sobreviver por si. O nascimento de um bebê decreta o nascer de uma mãe, ou quem desempenhe suas funções.


Atualmente, vemos aumentar as ocorrências de tentativas de suicídio e outros modos de agressão ao próprio corpo, que geram preocupação nos profissionais que lidam com saúde pública e nas clínicas e serviços de atendimento particular, principalmente em consultórios de profissionais da área psicanalítica. Cabe a nós, psicanalistas, a tarefa de orientação e apoio terapêutico às famílias, escolas e comunidade, buscando maiores e melhores recursos para prevenção e tratamento que possam auxiliar esse tipo de pacientes. Neles, no conflito entre as forças antagônicas, a pulsão de morte está ganhando terreno.


A vida moderna, com demandas tão diversificadas, em ritmo tão intenso e tempo escasso, não incentiva as pessoas a terem contatos pessoais e afetivos por meio dos quais a pulsão de vida é estimulada.


A clínica atual sinaliza a necessidade de um olhar cuidadoso aos atendimentos nos consultórios e instituições, desde as entrevistas iniciais para buscar indícios de destrutividade, que possam estar disfarçados em sintomas menos gritantes, mas que apontariam sérios riscos, pelo potencial de morbidade e pela chance de que o profissional não perceba o alto e dissimulado grau de perigo.


A meta que norteia nossa prática no dia a dia e no trabalho clínico é a promoção de meios que auxiliem as pessoas, principalmente os jovens, a descobrir o sentido da vida, ativando a energia libidinal, desenvolvendo tolerância às frustrações e também oferecendo apoio aos pais e familiares. Comunidade, escolas e famílias precisam de meios de enfrentamento dessa problemática. Isso se dá com a divulgação de informações e esclarecimentos que, ao serem expostos, melhoram as condições de lidar com essa difícil questão em adultos e jovens em risco.


Crescem estudos e literatura sobre esse assunto e sua divulgação é de interesse de todos os profissionais engajados na prevenção e tratamento dessa patologia.


Inevitavelmente, surge a questão: quais medidas poderiam diminuir a força da pulsão de morte e aumentar a pulsão de vida? Como seria possível incrementar o desejo de viver e viver bem?


A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo.


As experiências de sentir segurança e amor, de usufruir dos prazeres mais simples, da alegria genuína, do deslumbramento com a beleza e de sensações que deleitam a sensibilidade, sem dúvida, agem como verdadeiras “vitaminas” no psiquismo e o fortalece. Isso Bion chamou de vivências numinosas. Todas as formas de arte são reforços positivos a nossa alma.


Deixo a sugestão do filme “O Garoto”, de Charles Chaplin, do qual ele é diretor e ator. A singeleza com que trata um tema tão contundente, como o abandono, nos toca e inquieta profundamente e nos faz pensar no sentido que o olhar amoroso traz ao menino e quanto o afeto pode ser transformador.


Ceres Loures Martins – membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

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