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IMPRESSÕES SOBRE O DESCONHECIDO



Por Heleny Romero

Membro efetivo e docente do Instituto da SBPSP

Segunda secretária do GEP Rio Preto e Região

Membro de enlace do Comitê Cowap-IPA


Diante de tantas ameaças que o ser humano sofre – as bem concretas, como a fome - que faz a barriga doer, o corpo alquebrado e carente pela falta de recursos básicos sanitários, o rosto marcado pelas agruras da vida - as emocionais, como a solidão, as traições, as realidades difíceis ligadas aos vínculos, que ingenuamente, acreditamos; vimos nos últimos dias o ser humano de joelhos.


“Obediente” às leis sanitárias, o homem fechou-se. Trancado em casa, sem poder ver as pessoas que ama - família, amigos - sob a ameaça de um ser que é uma molécula nucleica e que penetra tão ardilosamente nas células, sem chance de combate – observamos, aos poucos, um movimento - igualmente surpreendente, o narci-ismo vai dando lugar ao social-ismo. Uma rede de ajuda se faz presente na solidariedade anônima.


Pessoas dispostas, se ajudando, oferecendo serviços, etc. Digo, aos poucos, por que, passada a descrença, no início, e muitas vezes a arrogância e necessidade de domínio – o barulho e a agitação do fazer, como se nada estivesse acontecendo – as piadas de mal gosto diminuíram, juntamente com as postagens, dando lugar ao salutar SILÊNCIO.


E com a chegada do silêncio, surge o que o ser humano tem de mais precioso - a capacidade de pensar, entra em cena a intimidade da reflexão.


Nós, analistas, estamos em tarefa dupla – nos acalmarmos, fazermos silêncio, para escutar o que o outro tem a dizer.


Um jornalista (Melo J, 2020) escreveu ontem que existe uma expressão italiana que ele gosta muito. Quando os italianos se despedem, entre outras expressões, eles têm o hábito de dizer: Ci sentiamo! Que significa “nos escutamos” no lugar do “nos falamos” ou “nos vemos”.


O autor do artigo diz que essa é uma bela deferência, ainda que retórica, o próximo encontro será para ouvir o interlocutor e não necessariamente para fazer-se ouvir.


Estamos vivendo uma cesura – esperamos que seja nos termos de Bion (Bion W,1977) – que se vislumbre uma transformação. Nossa tarefa está em estabelecermos a integração entre o confinamento e a aproximação, a expressão e o silêncio, as dores e a esperança. Isso não significa que não tenhamos medo – mas que temos de lutar para conservar, preservar e praticar o pensamento.


Chegamos na fronteira/limite do suportável? O Deus espinosano – a natureza - nos envia um recado?


Não sabemos. Ontem eu atendia uma adolescente que me disse: “Você ouviu falar que os canais de Veneza estão mais limpos? Que o ar de algumas metrópoles está mais respirável? Fiquei pensando que a natureza não é nossa inimiga ...”.


Ela fez uma pausa e disse: “Acho que o vírus somos nós!!”.


Veio-me no pensamento o poema de Manoel Bandeira (1930):


Vou me embora pra Pasárgada,

Lá sou amigo do rei,

Lá terei a mulher que eu quero,

Na cama que escolherei ...


Diante da ameaça inimiga e invisível, nos damos conta de que a Pasárgada não existe, não tem para onde correr, não tem controle, nem domínio, mas temos uns aos outros, nosso silêncio e nossa escuta e a capacidade fantástica que o ser humano tem de se recuperar.

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