O Estranho - Inconfidências

A jornada inaugural do Grupo de Estudos de Psicanálise (GEP) de São José do Rio Preto e Região também é um evento preparatório para o XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise, que tem como tema “O Estranho – Inconfidências” em alusão ao texto de Freud, de 1919, pela comemoração dos cem anos da publicação de “O estranho” e ao movimento da Inconfidência Mineira, pelo fato do referido congresso acontecer na capital de Minas Gerais – Belo Horizonte.

Outra conexão entre o texto de Freud e o movimento mineiro é que podemos considerar Freud um inconfidente ao ter se distanciado dos objetos e métodos de estudo da ciência de sua época, positivista, e se interessado pelo oculto, pelos processos mentais inconscientes e investigá-los por meio dos sonhos, das mitologias de origem, da antropologia, da literatura, criando uma nova ciência: a psicanálise. É da tradição da psicanálise dialogar com as diversas áreas do conhecimento.

O termo estranho, no artigo de Freud, tem o significado de algo inquietante, assustador, misterioso. Para identificarmos mais facilmente estas sensações e sentimentos de estranhamento é só nos lembrarmos dos museus de cera, diante daquelas figuras que parecem ao mesmo tempo espectros vivos, fantasmas e assombrações. Ou, quando repentinamente frente a um espelho, aquela imagem que causou estranheza é logo depois reconhecida como a do próprio eu.

Outra observação importante a considerar é que a publicação do texto “O estranho”, se deu em 1919, coincidindo com o fim da Primeira Guerra Mundial em 1918, cuja devastação causou horror e estranhamento pela destrutividade e crueldade, embora características conhecidas da natureza humana.

Em “O estranho”, Freud partiu da literatura, da estética, entretanto, não do belo que causa prazer, mas do que desperta angústia, horror, repulsa e descobriu que em alemão a palavra usada para estranho, desconhecido, em alguns de seus usos linguísticos coincidia com familiar, conhecido, íntimo, secreto. Pelo vértice psicanalítico, Freud, então, se dedicou a estudar o “estranho familiar”, a impressão assustadora que provém de coisas há muito tempo conhecidas, familiares e compreendeu que o estranho é o familiar que se afastou, se tornou inconsciente pelo mecanismo da repressão. E o reprimido, ao retornar à consciência é perturbador, assustador, inquietante, pois é o que “deveria ter permanecido oculto, mas veio à luz”.

Sentimentos de estranheza também acompanham o surgimento do absolutamente novo, do diferente, mas o texto de Freud nos remete ao desconhecido que outrora foi conhecido, ao estranho familiar.

A ideia do estranho acompanha o pensamento de Freud: os sentidos foram se ampliando, mas já aparece em 1893, no estudo sobre os fenômenos histéricos, quando observou que a indesejável lembrança do trauma psíquico age como “corpo estranho” na mente.

O texto “O estranho” articula muitas questões importantes, dentre elas o demoníaco, o duplo, o narcisismo e prenuncia a compulsão de repetição, a nova dualidade das pulsões, de vida e de morte, a mudança da visão tópica para a estrutural. Estas questões serão tratadas nas palestras do evento.

Para finalizar, o processo analítico também promove estranhamentos à medida que o marginal, o oculto se reapresentam como parte do eu, exigindo novas percepções de si mesmo, novas reorganizações da realidade psíquica.

*Maria Aparecida Sidericoudes Polachini é membro da diretoria científica do GEP Rio Preto e Região e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto (SBPRP)

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