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Sobre os sonhos



Por Maria Aparecida Sidericoudes Polacchini

Membro associado da SBP São Paulo

Membro efetivo com funções didáticas e docente do Instituto de Psicanálise da SBP Ribeirão Preto


Nossa jornada, no próximo dia 15 de agosto, tratará do tema “Múltiplos Sentidos dos Sonhos”. Nos tempos atuais, em que convivemos com o pesadelo de uma pandemia, falar de sonhos é tão oportuno quanto necessário, sejam eles noturnos ou criados em vigília.


Há sonhos noturnos que nos angustiam, outros nos desconcertam, muitos nos intrigam e há aqueles que realizam desejos tão gratificantes que gostaríamos que continuassem. De qualquer modo, são preciosas criações simbólicas que despertam o interesse humano, desde a antiguidade: já serviram de guia, interpretados como divinatórios e até hoje têm sido estímulos para mudança de rumo na vida de pessoas e na história da humanidade. Na arte, inspiram a criatividade, especialmente, desde o surrealismo e depois dele; na música, criam o tom e a palavra, entretanto, com a psicanálise alcançaram cientificidade.


Um dos importantes caminhos percorridos por Freud para se chegar à criação da psicanálise foi por meio de uma penetrante e fina observação de si mesmo, em relação aos próprios sonhos noturnos, com os quais reafirmou que atrás de uma realidade que se apresenta há outra influente que se oculta. Sua obra “A Interpretação dos Sonhos” (Freud, 1900) é testemunha desta qualidade de observação. Muito mais que os sonhos de outrem, ali foram apresentados seus próprios sonhos, examinados em relação a dois registros, manifesto e latente, quando ele já se encontrava tomado pela presença do inconsciente.


Freud mergulhou no psiquismo, desvelando a alma humana e desenvolvendo um novo saber, a psicanálise, e à época da elaboração de “A Interpretação dos sonhos” comunicou à Fliess, seu interlocutor: A psicologia está avançando de uma maneira estranha; está quase terminada, redigida como que num sonho (Mahony, citado por Noemi Kon, 1996, p. 143).


Noemi Kon, em seu livro “Freud e seu duplo” (1996), no qual apresenta e comenta a nota acima, considera que nesta fase Freud sonhava para escrever e escrevia para sonhar. Seu livro dos sonhos é assim vivido como proveniente de uma escrita que lhe escapa... e que tem, também, como no caso dos escritores criativos, seu material originário de suas próprias lembranças e desejos infantis (p. 143).


Nietzsche, antecipando Freud, sobre o valor dos sonhos, em “A origem da tragédia”, escrita em 1892, discute o espírito apolíneo do homem, comparando-o aos sonhos e o espírito dionisíaco à embriaguez, e diz que o mundo dos sonhos é a condição prévia de todas as artes, e complementa: Todo homem que for dotado de espírito filosófico há de ter o pressentimento de que, atrás da realidade em que existimos e vivemos se esconde outra muito diferente e, que por consequência, a primeira não passa de uma aparição da segunda (p. 36).


E é sobre esta outra realidade, oculta, sobre este outro registro, que Freud debruçou-se a desvendar a natureza humana e, assim, pela ciência, continuamos com o trabalho psicanalítico a proporcionar a comunicação entre estas dimensões que compõem a vida intrapsíquica e que orientam as relações intersubjetivas.


Nietzsche, na obra citada, diz que o artista, examina cuidadosa e minuciosamente seus sonhos, e o faz porque sabe descobrir nestas pinturas, a verdadeira interpretação da vida (p. 37).


Compreendemos, com a psicanálise, que os sonhos despertam e sugerem infinitas releituras e reinterpretações, possibilitando sempre novas revelações sobre o mundo mental. Entretanto, Freud chamou a atenção sobre o que denominou de o umbigo do sonho, ou seja, o insondável, a despeito de nosso alcance diante da possibilidade dos múltiplos sentidos de um sonho e mais amplamente da vida psíquica.


O que é humano se dá nas experiências contínuas dos sonhos noturnos e de vigília; e viver é realizar, continuamente, estes entrelaçamentos dos sentimentos e dos pensamentos alcançáveis e dos mais secretos no cotidiano da vida, numa espécie de síntese de processos psíquicos primários e secundários ou, dito de outro modo, das relações entre consciente, pré-consciente e inconsciente.


O dizer do próprio Freud, em carta à Fliess, no período em que redigia sua obra sobre os sonhos, é digno de nota: O segredo do sonho foi revelado ao Dr. Sigmund Freud. (Volume IV das Obras Completas, 1975, p.130). Ou seja, Freud não disse ter descoberto o segredo do sonho, mas que este se desvelou a ele, nos mostrando que a verdade sobre os sonhos esteve sempre aí, entretanto, agora, se lhe revelava. Na linguagem bioniana, um pensamento que, em busca de um pensador, encontrou-o.


Freud valorizou tanto os sonhos individuais quanto apontou a importância dos sonhos da humanidade, expressos por meio dos mitos e das artes.


A psicanálise, em sua contínua evolução, tem expandido o conhecimento sobre os sonhos, esta fonte simbólica de vitalidade na vida humana, dando atenção também ao pensamento onírico de vigília, ou seja, à imaginação criativa que substancia as artes, as ciências de modo geral e o exercício da psicanálise, cuja conjunção de ciência e arte se afirma continuamente.

Nas jornadas anteriores tratamos de questões ligadas à sexualidade e à violência, temas fundamentais da teoria psicanalítica e que se mantêm atuais na vida psíquica e de relação com o outro. Agora, nesta jornada, continuaremos destacando elementos importantes desta teoria e prática, ampliando nossa capacidade de sonhar e pensar sobre os múltiplos sentidos dos sonhos, noturnos e de vigília, especialmente no momento atual de vida, tomado pela pandemia, em que muitos sonhos se desvaneceram, outros se manifestaram sombrios, enquanto outros ainda têm sido despertados e transformados em atos criativos. Que esta jornada avive o sonhador em cada um de nós, para a preservação e expansão de uma das riquezas de nosso mundo simbólico.


Um fecundo encontro virtual a todos.

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