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Um pouco de angústia não faz mal a ninguém





Por Maria Aparecida Sidericoudes Polacchini

Membro associado da SBP São Paulo

Membro efetivo com funções didáticas e docente do Instituto de Psicanálise da SBP Ribeirão Preto

Membro do GEP Rio Preto e Região


Para começar, é importante compreendermos o que é angústia, esse sentir que caracteriza o ser humano. Comecemos, portanto, pela etimologia: a palavra se refere a apertado, pressionado, estrangulado, sufocado. De onde, então, o significado de aflição intensa, inquietação, tormento, pensamentos negativos perturbadores, ameaça por se concretizar, agonia, sofrimento por não poder agir, ou precisar agir. O filósofo Montaigne, em seus “Ensaios”, fala daqueles que vivem em contínua angústia pelo medo de perder seus bens e ao se referir a este medo diz: “Ora ele nos dá asas aos pés” (quando não deveríamos voar), “ora nos prega os pés e os entrava” (quando deveríamos voar). Muitas vezes, sensações físicas, acompanham a angústia, reações viscerais, por exemplo, sudorese, taquicardia, falta de ar, aperto no peito. Curioso notar que este sentimento pode ocorrer em situações que, mesmo percebidas como positivas, afligem a mente. Então, a angústia pode, em nós, surgir tanto por situações adversas quanto satisfatórias, por possibilidades de perdas ou ganhos.


De modo geral, podemos definir a angústia como reação afetiva, de irrupção do medo diante de uma ameaça, da sensação de um perigo vindo de fora ou de dentro de nós mesmos. Atualmente vivemos sob um perigo externo que nos coloca em estado de angústia, por não conhecermos a dimensão desta situação, o quanto pode nos atingir e ao outro. A angústia em relação à finitude se acentua. E o isolamento, para alguns, parece representar perigo iminente de perda do que fora construído, deste modo, vivem em desassossego.


Destaco, aqui, o sentimento de angústia que brota de motivos internos que desconhecemos, nos colocando em estado de estranheza, de espera à confirmação de um perigo, de expectativa ansiosa, de prontidão e entrada súbita do medo, se aproximando muitas vezes de um estado de pavor. Importante diferenciar angústia, que pressupõe antecipação ao perigo, iminência de um acontecimento tenebroso, uma espécie de sofrer antecipado, de susto, que está ligado à situação de surpresa.


A angústia, então, de modo geral, expressa nosso sofrimento, equivalente ao medo diante de um perigo, sem que necessariamente um objeto externo nos ameace. Então, estamos diante de perigos internos: lembranças que podem trazer inquietações; situações passadas de perdas, traumáticas, não elaboradas, que são acionadas no presente; sentimentos de desamparo em relação ao viver, excessiva dependência aos objetos exteriores e desconfiança dos recursos internos para lidar com as situações de vida. Assim, a própria vida, pode ser sentida como fonte de angústia. Dúvidas, incertezas sobre o presente e o futuro podem promover sentimentos aflitivos, especialmente às relacionadas à possibilidade de perda real ou imaginária de pessoas amadas. A angústia se instala por sentirmos que não dominamos plenamente a vida. Já dizia Freud que “não somos senhores de nossa própria casa”.


Diferenciamos a angústia: se um estado passageiro, em termos de duração, brando, no sentido de os temores não prejudicarem a capacitação para vida, mas alertarem para os cuidados e promoverem, com a inquietação, uma busca por conhecimentos e realizações, ou se crônico, na intensidade e duração, configurando impedimentos e patologias. Por isso podemos afirmar que um pouco de angústia, não faz mal a ninguém, pelo contrário, é uma especial condição para questionar a si mesmo, discriminar o real do imaginário, oportunidade para descobrir o potencial da força interior para lidar com as situações de vida, com o desamparo frente aos temores, ampliando a consciência de si e a responsabilidade com o próprio viver. Assim, a angústia se apresenta como força criativa aos poetas, aos escritores, artistas, filósofos, psicólogos, psicanalistas e a todos que se envolvem em indagações acerca da vida. E com este trabalho mental de pensar, ela se desvanece ao se transformar em realizações produtivas.


No indivíduo, a psicanálise busca compreender os motivos inconscientes de sua angústia, que o sufocam, para libertá-lo deste estado, para uma existência mais consciente e fecunda. O trabalho analítico observa também a angústia diante de momentos significativos da vida do indivíduo, mudanças que envolvem decisões importantes, ajudando-o a prosseguir em seus projetos, suportando as dúvidas a respeito de suas resoluções, o não saber futuro, expandindo as capacidades de sentir e pensar.


A angústia é, então, um estado de medo difuso, que caracteriza a vida humana, a sua existência. Comumente, temer a própria morte expressa o medo em relação à própria vida. A literatura já nos apontou como “viver é perigoso”. Entretanto, a experiência da angústia nos conduz a questionamentos que podem nos tornar mais fortalecidos para lidar com as dores da vida, com os temores, com as incertezas, com o não saber. A filosofia também se debruçou sobre a realidade humana, sobre a nossa angústia existencial, particularmente, diante de nossa liberdade para fazer escolhas. Escolher aflige, mas revigora a autonomia e a responsabilidade pessoal.

Portanto, como seres humanos, podemos dizer que estamos predestinados à angústia. A questão é como podemos aproveitá-la para o nosso desenvolvimento psíquico, pessoal, social, profissional. É até mesmo como um alimento para a mente, mas precisa ser metabolizado para se transformar em energia vital. Evidentemente que, se excessiva, pode intoxicar a mente. A psicanálise é um dos caminhos no qual podemos nos encontrar com a angústia, de modo fecundo, transformador e expansivo. Não precisamos temê-la, precisamos acolhê-la, como fonte de indagação, de criativas realizações e, especialmente, condição para desenvolver capacidade de se administrar a própria existência.

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