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UMA SEMANA DE ISOLAMENTO



Por Osvaldo Luís Barison

Membro efetivo e docente do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Membro do Grupo de Psicanálise de São José do Rio Preto e Região

O analista (como é bem sabido) mantém o julgamento moral fora da relação, não tem qualquer desejo de introduzir detalhes de sua vida e ideias pessoais, não desejando tomar partido com relação aos sistemas persecutórios, mesmo quando esses aparecem sob a forma de situações reais compartilhadas, locais, políticas etc. Naturalmente, caso haja uma guerra, um terremoto, ou se o rei morre, o analista não fica indiferente. (Winnicott, 1954c, p. 469)

Como psicanalista, sei que a organização do setting é de minha reponsabilidade. Acredito que sempre ofereci para meus pacientes o lugar mais agradável, seguro, sigiloso e confortável que posso. Desde a semana passada, tenho trabalhado on-line, por meio do celular, utilizando a função de voz do Whatsapp. Não é o melhor e nem desejado modelo de atendimento. No entanto, devo admitir, tem dado certo.


Propus aos meus pacientes – por meio de telefonemas realizados na semana anterior – que tentássemos nos abrir para novas formas de comunicação, frisando sempre a particularidade do momento. Apenas um não quis tentar, mas por questões do dinamismo próprio.

Nos horários normais das sessões, eu ligo para o paciente e, depois de breve cumprimento, a conversa começava a acontecer. Iniciei usando o fone de ouvido e com o vídeo ligado. Logo percebi que o volume do fone me irritava e o vídeo tirava minha espontaneidade. Assim que percebi isso, modifiquei com os próximos pacientes. Sem o fone, ligo com o vídeo, mas aviso que irei desligar e retomar a ligação somente com o som. Criei a ideia de que é importante que o paciente me veja, assim como a sala que sempre frequentou. Também percebi que somente com o som não há interrupção da qualidade da ligação. Acredito que o vídeo “pesa” muito na transmissão.


Na terça-feira, depois de um dia intenso de atendimento, percebi que estava muito cansado. Foi quando realizei que eu estava usando um tom de voz mais alto do que o meu habitual. Percebi que cometia o erro de achar que tenho que falar mais alto para o paciente me ouvir. Corrigido isso, retomando meu tom de voz normal, grande parte do cansaço diminuiu.


Feito isso, reclino minha poltrona, coloco o celular na mesinha ao lado e tento encontrar dentro de mim a condição analítica que sei que me habita. Sugiro também aos pacientes que encontrem em suas casas lugares confortáveis e silenciosos, os quais podem garantir privacidade. Vários preferem se deitar na própria cama, ou em seus escritórios. Quando percebo que o paciente, enquanto realiza a sessão, também faz outra coisa, lido de forma analítica, atribuindo algum sentido que me parece pertinente.

Claro que o assunto inicial é exatamente a reclusão, as informações que recebeu, os medos concretos e as providências que estão tomando para se protegerem, e aos seus. Não sinto necessidade de falar como eu estou fazendo, a não ser quando perguntam e eu respondo de forma genérica, porém compartilhando que também me preocupo comigo, com minha família e com a humanidade.


Invariavelmente, a conversa evolui para outros assuntos, porém com forte prevalência do medo, do desamparo e das formas que desenvolveram acreditando conseguirem alguma segurança. Questionamentos profundos são feitos sobre a forma que conduziam a vida, os valores próprios e as qualidades das relações. Tem-se aberto grandes temas do mais alto nível de percepções e propostas pessoais para “fazer diferente”. A ameaça da morte provoca vários níveis de reflexões.


Alguns ainda funcionam mais em pensamento binário, acreditando em teorias conspiratórias e soluções mágicas. Mas são pessoas que pensam ainda de forma mais concreta e menos autônoma na condução da própria vida. Diante da perplexidade da complexidade do que estamos vivendo, buscam respostas rápidas que alivie a angústia. Com estas sei que preciso acolher e interpretar a angústia para que não sejam invadidos pelo ódio, abrindo espaço para algum pensamento criativo. Era o que já fazíamos presencialmente.


É importante destacar que atualmente meus pacientes estão comigo há muito tempo, com laços estabilizados e bom contato. O que tem me parecido importante, é que tem “dado certo”. Ou seja, temos tido sessões significativas, com qualidade, com associações e trabalho analítico semelhante ao presencial.


Torço muito para que a necessidade de isolamento acabe logo. Enquanto isso, aproveito desse dispositivo para manter-me ativo e próximo dos meus pacientes.


Referência:

Winnicott, D. W. Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro do setting psicanalítico: 1954 – 1955. In: Winnicott, D. W. Textos selecionados: Da pediatria à psicanálise. 2ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992. P. 459-81. (Psicologia e Psicanálise).

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