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Vamos falar da nossa virulência?




Por Marcelo Salles Bueno

Membro Filiado ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto.

Membro do Grupo de Estudos de Psicanálise de São José do Rio Preto.

Filiado à Associação Psicanalítica Internacional (IPA).


Temos dois vírus fortes e graves circulando entre nós.


O primeiro, o coronavírus, que é uma forma orgânica de vida, invisível a olho nu e letal. Tem contaminado rapidamente centenas de milhares de pessoas pelo mundo e começa sua devastação no Brasil.


O outro vírus é o mental, psicológico. Esse é tão ou mais perigoso que o primeiro. Por quê? Porque ele leva as pessoas à morte por vários outros caminhos (coronavírus, dengue, suicídio, genocídio, violência doméstica, loucura etc.). O mecanismo que ele usa é o de atacar as células do conhecimento, assim, ele vai imobilizando aos poucos a condição do ser humano de pensar em si mesmo e no grupo. Ele vai criando divisões entre as pessoas. Esse vírus vai se instalando de um modo muito curioso: ele se apresenta com um discurso racional e “lógico”. Ele se apropria de toda a carga de conhecimento da humanidade e vai distorcendo o material do conhecimento. Desse modo, ele pega um pedaço do discurso político e costura com um pedaço de um discurso religioso; pega um pedaço da teoria médica e costura com um pedaço de algum discurso político, e por aí vai.


Primeiro ele faz assim: ele nega qualquer comunicação com o conhecimento. Ele tenta imobilizar a verdade. Por que faz isso? Porque a realidade, a verdade, muitas vezes, é tão dura e cruel que, em pânico, esse vírus precisa paralisar qualquer informação sobre a realidade. Em outras palavras, é como se ele acreditasse que fingindo não saber, não ver, ele ficasse protegido dessa dor. Como se se tornando a verdade ele ficasse tão forte quanto a própria. Então ele começa a se defender do jeito que pode. A ciência, o saber, aquilo que milhares de pessoas estudaram e desenvolveram durante muitos séculos de pesquisa, tornam-se seus inimigos. Esses passam a ser seus algozes e devem ser imobilizados. Esse vírus fica tão desesperado que ele não quer nem saber: “vamos interromper qualquer elo que nos ligue com essa verdade dolorosa que está me deixando muito angustiado e com medo!”.


Esses mecanismos, a negação da realidade e a projeção do medo, se juntam e ambos criam uma camada ilusória de proteção. Então, negando a realidade e projetando para fora esse medo, sentimos que estamos protegidos. O problema que isso dura pouco, essas defesas falham. Então, faz-se necessário criar um “bode expiatório”. Então, os chineses passam a ser os seus inimigos, os meios de comunicação tornam-se os agressores, o Ministro da Saúde torna-se ineficiente. E isso traz um alívio temporário.


O problema é que isso não resolve a situação; pelo contrário, o vírus orgânico continua a se disseminar e se acelera. E o vírus mental só impede que o orgânico seja interrompido o mais rapidamente possível. E por que esses mecanismos não funcionam? Porque a carga de violência e ódio é nossa e continua viva dentro de cada um de nós. Não está fora. A carga viral violenta continua viva no nosso Eu. Qualquer tentativa de diminuir a carga dessa força, por esses meios, torna-se inócua. Cada dia alguém ou alguma coisa se torna o inimigo. O alvo a ser eliminado. As teorias conspiratórias servem apenas para criar divisão e perseguição. As pessoas passam a achar que se trata de uma briga entre esquerda e direita, e que o mal está lá fora, no governador, nos políticos, nos idosos, na China, nos meios de comunicação. Há falhas no sistema político, sem dúvida, entretanto, tentar culpar os meios externos, nesse momento, só leva a mais divisão e nos distancia do foco a ser trabalhado.


​Falarmos e refletirmos sobre a nossa carga virulenta, sobre o ódio que carregamos dentro de nós, é uma saída para acalmarmos e aquietarmos nossa mente. A paz interna só se alcança se conversarmos com essas partes virulentas dentro de nós.


Correr, cozinhar, ler bons livros, assistir a bons programas de arte, apaziguam essa força destrutiva; porém, o que de fato pode abrandar e acalmar nossos corações é falar sobre nossa virulência. É fazer contato com essas partes destrutivas. Para isso os psicólogos e psicanalistas são treinados, para auxiliarem as pessoas a fazerem contato com essas partes difíceis que, sozinhas, só provocam dor e sofrimento.


​Em tempos de isolamento, grande parte da população vive entre seus familiares, filhos e cônjuges. O convívio na intimidade passa a ser intenso e essa carga virulenta aparece, é estimulada. Todas as frustrações que atribuímos às escolhas que fizemos na vida comparecem nos vínculos familiares e, muitas vezes, tornam-se insuportáveis. E, às vezes, para proteger nossos familiares da nossa carga explosiva, que estão inconscientes, elegemos um bode expiatório.


​Nesse momento de reclusão temporária, temos a oportunidade de olharmos para dentro de nós e verificarmos o quanto somos agressivos. Desse modo, podemos acalmar nossas mentes e suportar a espera necessária, até que os profissionais cuidem para que possamos retornar às nossas vidas.


​E a agressividade e violência aparecem como decorrência de um pavor: o medo da morte, de passarmos a não mais existir. O Corona só retirou a coroa ilusória da onipotência do homem, trouxe-nos para mais perto de nós mesmos e, para muitos, isso é muito temeroso.


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