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Suicídio

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Por Heliete R. Gouveia
Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto / Coordenadora de eventos do GEP Rio Preto e Região


“A vida é desafio

Tenha fé porque até no lixão nasce flor

Insista, persista, mas nunca desista!

As grades nunca vão prender nosso

pensamento”

(Mano Brown, 2002)



O termo suicídio significa “morte de si mesmo”. É o ato de causar a própria morte de forma intencional. O suicídio é a manifestação da liberdade humana em seu limite extremo, uma forma de lidar com o sofrimento, uma saída para livrar-se da dor de existir. É uma tragédia pessoal e familiar, uma manifestação autodestrutiva, um ato impulsivo, um rapto ansioso, transitório, pode durar minutos ou horas, é algo de que a pessoa pode dispor quando a vida lhe parecer insuportável.


Para a Psicanálise, o suicídio é uma atuação. Ele surge quando acontece uma “fenda", uma desarticulação entre o pensamento e o ato. A intenção quer, por via do ato, evitar a dor psíquica. Ele resulta de uma luta constante entre a vida e a morte, em que a última acaba prevalecendo. Ele é também um “paradoxo”. Não é morrer que a pessoa quer, ela não quer é mais viver. Não quer a morte, o que deseja é livrar-se do sofrimento.


O desejo de morrer tem um significado distinto para cada ser humano que tenta o suicídio. As mortes trazem consigo construções ao longo da vida. Muitas vezes, a pessoa está reeditando situações e afetos que vivenciara na infância. Ela revive traumas, sentimentos de rejeição, insegurança e abandono. Percebe-se nestes indivíduos a existência de uma vulnerabilidade psíquica. Algumas pessoas estão mais vulneráveis a cometer suicídio do que outras. A depressão e a melancolia são destacadas entre as doenças vulneráveis.


Em uma constituição psíquica melancólica, a pessoa está constantemente flertando com a morte. Freud, em seu trabalho “Luto e melancolia” (1917/1986), descreve a melancolia como a incapacidade de realizar o luto. Tomando a melancolia como ponto de partida para uma possível compreensão do suicídio, Freud aponta a renúncia à autopreservação, o desapego à vida, a incapacidade de amar, a diminuição da autoestima e a expectativa de autopunição que levariam ao desinvestimento no desejo de viver.


É importante destacar que as hipóteses freudianas a respeito do suicídio, pautadas na melancolia, têm, como pano de fundo, a predominância da pulsão de morte. Outros autores psicanalíticos veem a morte como um parto ao contrário, no qual se deseja o reencontro simbiótico com a mãe, vivido na infância, em uma espécie de útero.


Os suicídios podem acontecer também em um contexto em que não há lugar para a tristeza e para a dor, em que não é permitido errar e falhar, no qual as pessoas sentem-se incapazes de atender a essa demanda. Outras vezes, há um desprezo pela vida, uma vida que não foi possível ser investida, um ressentimento ao ver-se não reconhecido entre seus iguais. Sente-se fracassado, com um sentimento de que não vale a pena viver se não puder ser visto.


Torna-se importante ressaltar que, na tentativa de suicídio, a pessoa está tentando desesperadamente comunicar seu sofrimento da melhor forma que pode; ela pede socorro de alguma maneira. Não é um ato para “chamar a atenção” e, sim, para “clamar atenção”. Reduzi-lo a “chamar a atenção” é minimizar a dor, não lhe creditando valor. Enfim, o suicídio é a resposta do indivíduo a um estado de dor insuportável, no qual não há possibilidade de elaboração ou simbolização dessa dor. A única forma de cessar o sofrimento é cessando a vida. Ele é, em última instancia, um questionamento radical a respeito do sentido de viver.


No entanto, a perda das ilusões precisa dar lugar a esperança. A escuta psicanalítica pode vir a promover, diante do risco inerente aos atos autodestrutivos, a construção de alternativas para o enfrentamento da dor psíquica e do sofrimento. A análise traz a possibilidade de boas experiências com seus pares. Um analista provedor de um continente, onde existe uma parceria para a construção de um espaço-mente, para pensar os pensamentos. Utilizando as ideias de Bion: “Ampliando continente-mente por meio da atividade investigativa, introduzindo dúvidas nas certezas, utilizando um filtro para suas produções agressivo-violentas, de forma que seja possível albergar outros conteúdos diferentes de destruição, violência e desamor” (2017, p.21)

Prevenção do Suicídio

O suicídio se trata de uma importante questão de saúde pública no mundo. De acordo com a OMS, o suicídio é a segunda causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos, principalmente em países de baixa renda. Cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio, todos os anos, no mundo. Um suicídio ocorre a cada 40 segundos, nos dados da OMS. O Brasil é o 8º país do mundo com números de suicídios confirmados. É a quarta maior causa de mortes entre jovens da mesma faixa etária. A cada 46 minutos, um suicídio. Embora nem todos os suicídios possam ser prevenidos, em 90% dos casos, podem ser evitados.


O suicídio é um tema complexo que leva muitos profissionais da saúde a refletirem sobre o que leva uma pessoa a tirar a própria vida e para o qual não existe uma única razão. Ele resulta da interação de vários fatores: biológicos, genéticos, psicológicos, sociais, psiquiátricos, culturais e ambientais. Portanto, sua prevenção e controle não é uma tarefa fácil. Nem todo indivíduo acometido por um grande sofrimento pode ser auxiliado. No entanto, existem algumas ações e medidas que podem prevenir o suicídio.


Um passo importante nessa prevenção é poder identificar, abordar e manejar a ideação suicida. A maioria dá indícios e avisos de sua intenção, que não devem ser ignorados. A pessoa, de alguma maneira, pede ajuda por meio de sinais verbais e não verbais. É preciso estar atento a eles. Existem alguns sentimentos que denunciam esses sinais: culpa, desesperança, desamparo, desespero e depressão. A relação entre suicídio e depressão é estreita. Depressão é o diagnóstico mais comum observado nos suicídios. Sendo assim, torna-se fundamental dispensar o maior tempo possível para ouvir essas pessoas, efetivamente, em local apropriado, onde haja privacidade e sigilo. Ouvi-las com afeição, respeito e não julgamento. Com empatia, atenção e interesse, não diminuindo a importância dos seus sentimentos.


É essencial observar sentimentos de inferioridade, insegurança e autodesvalorização. Investigar se a pessoa se isola, apresenta dificuldades de relacionamento social e familiar e se apresenta também dificuldades para comer e dormir. Considerar com atenção, sentimentos e pensamentos em pessoas que possuem doenças crônicas. Observar se a pessoa faz uso de álcool e drogas com frequência. Esses comportamentos aumentam o risco de suicídio.


É necessário reduzir o máximo possível o acesso a métodos e formas de cometer suicídios como remédios controlados, pesticidas, armas de fogo e utensílios para este fim. É importante, também, permanecer o maior tempo possível ao lado da pessoa com intenção suicida, além de conversar com a família e amigos sobre essas intenções. Portanto, levar a sério uma ameaça de suicídio é sempre muito importante. Cria-se uma possibilidade de que essa pessoa sinta-se vista e ouvida. Sendo ouvida, é possível criar a condição de começar a se entender, ter consciência da sua impulsividade e agressividade e assim poder se permitir fazer escolhas que a protejam de si mesma, além de gerar a esperança de assimilar e elaborar seu sofrimento.


Por fim, diante da ideação suicida, é fundamental procurar ajuda de profissionais da saúde como psicólogos, psicanalistas e psiquiatras.


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