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Depressão - Breves Considerações

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Por DRA. VANESSA FIGUEIREDO CORRÊA
Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
Membro do Grupo de Estudos de Psicanálise de São José do Rio Preto e Região

Depressão – breves considerações

 

“a vida inteira que poderia ter sido e que não foi”

(Manuel Bandeira)

 

As oscilações de humor de acordo com as demandas afetivas são naturais: fica-se mais triste ou irritado de acordo com os problemas que cotidianamente se apresentam. Uma pessoa triste em geral não sente vontade de se relacionar e diminui o seu nível de atividade, ficando mais recolhida. 

Porém esse estado deixa de ser “normal” e precisa ser investigado como depressão quando persiste por mais de duas semanas. Deve-se procurar um profissional de saúde mental caso a tristeza e/ou irritabilidade prevaleçam todos os dias, na maior parte do dia, e houver perda de interesse por quase todas as atividades que antes eram consideradas prazerosas. Poderão ainda estar associados sintomas como: alterações no apetite ou peso, sono e atividade psicomotora, diminuição da energia, sentimentos de desvalia ou culpa, dificuldades para pensar, concentrar-se ou tomar decisões, ou pensamentos sobre morte e ideação suicida. (DSM-IV-TR)

Estima-se que mais de 300 milhões de pessoas [1] no mundo sofram de depressão, mas mesmo sendo um mal tão prevalente, o diagnóstico e manejo pode ser desafiador, por se tratar de um transtorno com manifestação heterogêneas, englobando desde quadros mais leves (que em algumas situações são negligenciados até mesmo pelo próprio paciente), e quadros moderados ou mais graves e incapacitantes, que colocam em risco a vida da pessoa deprimida e por isso necessitam de intervenções drásticas, como o uso de diferentes classes de medicamentos e em casos extremos, até internação hospitalar. De qualquer modo, o tratamento da depressão se torna mais eficaz quando abordagens medicamentosas são associadas ao tratamento psicoterápico e ao suporte familiar e social. 

A depressão pode estar ligada a diversas causas, não apenas endógenas (orgânicas), mas também questões da vida que de forma consciente ou inconsciente perturbam a ligação do sujeito com seu meio. Na Psicanálise, especificamente, a compreensão das causas e o tratamento desse transtorno estão em pauta desde os primórdios. Freud, em 1915 escreveu um importante trabalho chamado “Luto e melancolia” em que diferencia o estado não patológico de luto, no qual a perda de algo ou alguém amado é processada no seu curso natural, de forma que a tristeza e dor se dissipam ao longo do tempo, resultando em saudades e na condição de reintegração e retomada da vida pelo sujeito que sofreu a perda. 

Em contraste com a melancolia, estado mais próximo do conjunto de sintomas que hoje denominamos depressão, no qual a pessoa fica ligada à sensação perda de forma patológica e não consegue retomar adequadamente suas atividades. Nesses casos, o tratamento psicanalítico contribui para que o trabalho de luto seja realizado e o analisando volte a se ligar às suas rotinas e às pessoas presentes em sua vida. 

A função do analista no manejo da depressão não é pontual, mas processual: vai muito além de fornecer ao analisando atitudes internas como continência, empatia, coerência e paciência. O profissional auxilia na medida em que se permite ser introjetado como alguém confiável, contendo as angústias que se manifestam no setting, dando limites e contornos psíquicos, sem ser destruído e sem desaparecer. As experiências emocionais assim vividas na relação analítica criam a condição para a reestruturação mental do paciente e a consequente evolução benéfica do quadro. 

As depressões recorrentes e sem tratamento podem levar ao mesmo sentimento expresso no verso de Manuel Bandeira - “a vida inteira que poderia ter sido e que não foi”: sentimento de perda irreversível, constatação de que o tempo que era para se viver foi ocupado pela impossibilidade de desfrutar de prazeres e alegrias.

Muitos outros autores como Melanie Klein fizeram importantes contribuições sobre o assunto e embora não se esgote aqui a discussão sobre as causas, abordagens, interpretações psicanalíticas e possibilidades do tratamento da depressão, é necessário sempre levantar pontos que ampliem as reflexões sobre esse complexo tema, que não pode ser tratado como mera deficiência de serotonina. 

 

Vanessa Figueiredo Corrêa

Médica Psiquiatra e Psicanalista. Membro associada à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e ao GEP São José do Rio Preto e Região.

 

Bibliografia:

Manuel Bandeira – Antologia poética – 12. Ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

DSM-IV-TR – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Trad. Cláudia Dornelles; - 4.ed.rev – Porto Alegre: Artemed, 2002.

Freud, S.- Luto e Melancolia (1917 [1915]); trad. e notas Paulo César de Souza – São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Zimerman, D.E- Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – Porto Alegre: Artmed, 1999.

 

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