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Em tempos de Corona vírus

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Por ADRIANA CORTELLETTI UCHÔA

Membro do Grupo de Estudos de Psicanálise de São José do Rio Preto e Região

Recomendo para este momento, em tempos de Coronavírus, o livro Dias Exemplares (2006), de Michael Cunningham, ganhador do prêmio Pulitzer em 1999 pelo livro As Horas (1998) que, em 2002, foi adaptado para o cinema num filme homônimo, dirigido por Stephen Daldry e estrelado por Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore.


Neste livro, o autor dialoga o tempo todo com a grandiosa poesia de Walt Whitman (1819-92), retratando a loucura americana em três tempos: a violenta industrialização do século XIX, os paranoicos tempos atuais e um futuro impreciso, no qual seres humanos conviverão com androides e extraterrestres numa Terra deteriorada por catástrofes ambientais.


O livro trata de três histórias sutilmente interligadas, em que um mesmo personagem, Lucas, vai sofrendo transformações, decorrentes da ação da época em que a história está ambientada.


Numa primeira parte - Na máquina, Lucas, um jovem pré-adolescente, deformado e franzino, vive o esmagamento da era industrial do século XIX, numa confusão mental em que desenvolve a teoria de que os mortos se relacionam com o os vivos através das máquinas - seu irmão mais velho havia morrido em decorrência de um acidente ocasionado por uma máquina que operava, vítima da exploração do trabalho infantil.


Na segunda parte - A cruzada das crianças, esse mesmo menino infeliz, sem família e sem nome, vive a ação da violência atual e se dispõe a servir como homem bomba, a serviço de uma ação terrorista neste mundo globalizado. É salvo por uma psicóloga negra, Cat, que comovida pela sua história o adota e lhe dá um nome: Luke.


E, na terceira parte - Como a beleza, numa história ficcional, que antevê um mundo deteriorado pelas grandes catástrofes, o mesmo Luke, sobrevivente da raça humana, ajuda um androide e sua namorada alienígena a fugir das autoridades locais e buscar sua salvação em outro mundo distante da Terra.


Por essas três fábulas extravagantes, passam os grandes temas da vida contemporânea: as fraturas sociais, o medo do terrorismo, a degradação ambiental, a cultura do espetáculo, os limites morais da ciência. E, sobretudo, a deterioração das relações humanas que vem transformando nossos jovens em jovens assustados com o contato humano.


O homem contemporâneo, esse ser meio androide, meio humano, contém Lucas, que contém Luke, que se esforça para manter seu lado humano!


Estamos vivendo uma pandemia, o Coronavírus, que assola o mundo neste momento e nos coloca frente a frente com nossa fragilidade como seres humanos. Nos faz deparar com a condição de dependência em relação ao outro para lidar com o nosso desamparo. E nos coloca frente à inevitabilidade da morte.


Esta pode ser a maior epidemia da história desde a gripe espanhola (1917-18). Anterior a ela, a Europa passou pela peste bubônica, varíola, tifo, cólera, tuberculose, conhecida como o mal do século. E, mais recentemente, desde 1980, a AIDS, transmitida sexualmente, matou muitas pessoas, principalmente jovens.


A história mostra que o mundo enfrenta epidemias aproximadamente a cada cem anos e, por cálculos matemáticos, esta pandemia atual já fora prevista por cientistas, como anunciou Bill Gates em sua palestra dada em 2015 para o Ted Talks.

O homem em sua arrogância, acreditando-se superior às demais espécies, como destaca nosso colega Osvaldo Barison em seu último artigo, Consciência de Espécie, negligencia os perigos que o ameaçam por não cuidar do seu ecossistema.


O livro, que em sua última parte trata de maneira ficcional de um mundo futuro devastado e a luta de um sobrevivente por encontrar um lugar habitável, não está distante da realidade que estamos vivendo hoje.


Se não aprendermos desta experiência para modificar os erros que vimos cometendo há séculos, novas catástrofes irão nos assolar.

“Na guerra, o objetivo do inimigo é assustá-lo de tal maneira que você não possa pensar claramente, enquanto que seu objetivo é continuar pensando não importa o quão adversa ou medonha seja a situação”, Bion, W.in Making the best of a bad job (1979), Four papers (1987).


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