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Sobre o valor científico e cultural da obra de Freud

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Por MARIA APARECIDA SIDERICOUDES POLACCHINI
Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e Sociedade Brasileira de Psicanálise Ribeirão Preto
Membro do Grupo de Estudos de Psicanálise de São José do Rio Preto e Região


Werner Jaeger, filósofo alemão, que viveu de 1881 a 1961, em um estudo sobre Literatura, concluiu que a, foram primeiramente alcançadas pelo espírito grego e, posteriormente, pelo espírito inglês por Shakespeare (1554 – 1616) e pelo espírito alemão por Goethe (1749 – 1832). (Jaeger, Paidéia,1986, p. 46).


Lembremo-nos que Freud recebeu o prêmio Goethe, prêmio cultural oferecido estritamente às personalidades cuja obra criativa fosse digna da honra dedicada à memória de Goethe, confirmando o reconhecimento do valor não apenas científico, mas cultural de sua obra.


Jaeger, o autor acima citado, em sua obra “Paidéia - A Formação do Homem Grego” (1986), ao estudar os autores trágicos, apresenta um capítulo dedicado a Eurípides, autor grego do século V a.C.. Dentre os atributos conferidos ao tragediógrafo, Jaeger diz que Eurípides foi o primeiro psicólogo; foi o descobridor da alma num sentido completamente novo [...] foi o inquiridor do inquieto mundo dos sentimentos e das paixões humanas; o criador da patologia da alma. Foi com Eurípides que se introduziu no palco, pela primeira vez, com despreocupado naturalismo, a loucura com todos os seus sintomas. Eurípides foi o criador de uma arte que se funda na própria vida (p. 281).


Para situar a obra de Eurípides em relação aos outros tragediógrafos que foram seus antecessores, encontramos em Ésquilo a representação do sagrado, em Sófocles, o congraçamento do sagrado com o humano, destacando-se a ação da aristocracia, e em Eurípides, os deuses perderam seu poder, a ação acontece entre pessoas comuns, especialmente, mulheres. Eurípides encenou situações emocionais em que homens e mulheres são dominados por intensas paixões e impulsos conflitantes; questionou a religião, a moral, demonstrou independência intelectual e escandalizou a opinião pública (Gama Kury,1993).


Observamos, então, que se para Harold Bloom, Shakespeare (século XVII) é nosso psicólogo, como apontamos em texto anterior, para Jaeger, o primeiro dentre todos foi Eurípides (século V a.C.).


Usando a tragédia “As Bacantes”, de Eurípides, como fio condutor de suas ideias, o filósofo brasileiro Sérgio Paulo Roaunet trabalhou com o tema “Razão e Paixão”, em um diálogo entre Literatura, Filosofia e Psicanálise (Os Sentidos da Paixão, 1987).


Na tragédia “As Bacantes” (405 a.C.), de Eurípides, encena-se a exaltação, o êxtase, o louvor das mulheres (as bacantes) ao novo deus, Dioniso, estrangeiro, recém-chegado à Tebas. Penteu, o então rei de Tebas, menospreza a origem divina de Dioniso, subestima seus mistérios, mas Tirésias, velho e cego, reconhece a origem do novo deus, as suas virtudes, e se dispõe a conhecer os mistérios dionisíacos e, por isso, foi julgado insano, por Penteu.

Rouanet faz uma análise da paixão e da razão. Ao analisar a razão, ele a vê, de um lado, representada por Penteu, com todos os seus argumentos para expulsar Dioniso (representação da paixão), e a esta razão denominou-a de razão louca; de outro lado, a razão representada por Tirésias, que soube acolher os mistérios dionisíacos (as paixões) e reconhecer a loucura de Penteu nos argumentos usados contra Dioniso. A esta razão crítica de Tirésias, Rouanet denominou-a de razão sábia, em contraposição à razão cega e atrofiada, máscara da personalidade despótica de Penteu. (Roaunet, 1987, p. 444).


A razão louca, de Penteu, segundo Rouanet, é a que recusa a paixão, e ao rejeitar o que nela é irracional, acaba sucumbindo ao irracional e se condena à perpetuação da falsa consciência. A razão sábia, a de Tirésias, é a que está aberta a interagir com a paixão, ela pensa a partir do vivido, conhece o ódio e o amor, conhece a força pulsional e, deste modo, produz saber crítico, no plano cognitivo e autonomia, no plano moral (Roaunet, 1987, p. 453).

Em concordância, então, com Jaeger, que diz que Eurípides foi o primeiro psicólogo, Rouanet diz que o velho e cego Tirésias, como desvendador de estruturas profundas, foi o primeiro psicanalista (Rouanet, 1987. p. 442), pois Tirésias reconheceu no discurso consciente de Penteu, na sua forma de argumentação, a influência dos determinismos do desejo. Tirésias desconfiou dos argumentos de Penteu. Tirésias sabe que a razão pode ser a máscara da desrazão, que pode ser uma manifestação disfarçada dos desejos e que a razão que exclui a paixão [...] é uma razão insensata (Roaunet, 1987, p. 442).


É na direção da razão consciente de sua vulnerabilidade ao irracional que Rouanet perfila Freud e a Psicanálise.


Retomo, agora, a referência, já citada, de Jaeger em relação a Eurípides (séc. V a.C.), para propor que podemos também nos referir a Freud (séc. XX), como um inquiridor do inquieto mundo dos sentimentos e das paixões humanas, entretanto, como o criador de uma ciência do espírito, de uma ciência que se funda na própria vida a desvendar as estruturas profundas do psiquismo humano e da patologia humana, ao colocar, no mesmo palco, em cena, a sanidade e a loucura, o selvagem e o civilizado, a tradição e a inovação, a paixão e a razão, o sonho e a alucinação, a narrativa e o delírio.





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