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Transferência: a clínica em movimento

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Por Alírio Dantas
Presidente, professor e analista didata da Sociedade Psicanalítica do Recife (SPRPE) e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ)


“O caminho que o analista deve seguir não é nenhum destes; é um caminho para o qual não existe modelo na vida real” (Freud, 1915).

Numa carta em 21 de setembro de 1897, Freud descreveu numa observação genial, que o inconsciente é vivo, dinâmico e que, portanto, se movimenta, dentro dele mesmo e em direção ao mundo. Aos poucos, ele observou que esses movimentos ocorrem por meio das representações e da busca de significados. Mais tarde, faz notar que esses significados recalcados, impedidos de expressar-se por palavras, irrompem na relação analítica, ressignificando a natureza da relação e das emoções vividas, configurando o campo da transferência.

A transferência é o acesso mais amplo que o analista dispõe para entrar em contato com a dinâmica do mundo interno do analisando. Andrè Green (1988) escreveu que a transferência deixa de ser um simples conceito para tornar-se uma condição a partir da qual todos os conceitos podem ser pensados. Se a transferência não mostra o inconsciente, ela o torna legível.

A transferência envolve o analista e o analisando numa nova experiência emocional que se destina a re-significar as representações mentais, desconstruindo e construindo as emoções contidas no mundo interno do analisando. Em todo caso, podemos concordar que a ‘cura pela palavra’ tem lugar na espessura de uma experiência emocional compartilhada (Hernandez, 1998).

A alma não se experimenta a si mesma, senão por meio de emoções. Freud (1895[1893]) afirmou que a ideia, quando é colorida pelo afeto, emerge na consciência clara e vividamente. Para Bion, o significado é função do amor, do ódio ou do conhecimento de si mesmo (Bion, 1965, pg. 73).

A publicação do artigo sobre o “amor de transferência”, em 1915, formalizou aquilo que vinha se construindo, desde há muito, no pensamento freudiano, desde os Estudos sobre histeria e, sobretudo, com o caso Dora. Neste artigo, faz notar que a transferência constrói uma delicada e profunda relação entre a dupla analítica. Descrita por Ogden como “o terceiro analítico”, essa relação tem vida própria e representa uma clínica em movimento incessante.

Com a vida dominada pelo mundo virtual, a velocidade das relações vem se acelerando, com suas mudanças rápidas e um apetite crescente por novidades, o movimento da clínica aumenta sua dinâmica. As recentes consequências desta pandemia estão exigindo uma reflexão cuidadosa dos psicanalistas. É cada vez mais fundamental revisitar as teorias, e buscar coerência e precisão no nosso ofício.

FREUD, S. , “Observações sobre o amor transferencial”, (1915) in Obras Psicol. Comp., vol XII, Imago Ed.

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